terça-feira, 26 de setembro de 2017

Comida afetiva

"Não é tão saudável, mas é comida de conforto que aquece a alma."

Comida afetiva não é o melhor título para esta postagem.

Medo de comida. Agora sim, é sobre isto que quero dialogar com vocês.

Não sei se vocês já esbarraram por aí, internet afora, nessas hashtags - #comida afetiva  #comida de conforto #nao tao saudavel  #alimentação emocional.

Num primeiro olhar, é bonito, é poético, porém eu comecei a colocar bastante atenção no fenômeno e percebi algo escondido por trás da linda comida afetiva.

A frase que abre esta postagem exemplifica minha percepção.

O contexto era uma bonita foto numa mesa de toalha e louça claras, flor, e um prato de talharim de encher os olhos e dar água na boca.
Mas junto a esse cenário e momento bonito, apetitoso, vem a justificativa - não é tão saudável, mas é comida de conforto que aquece a alma.

E tantas outras postagens cuja legenda esconde e justifica um medo. "Olha, mas não é fritura viu?!"
"Ah, não é sempre que eu como isso, é porque minha avó fez né?!" "De vez em quando pode".

Estamos com medo da comida e por isso nos justificamos tanto.

Afastamos-nos tanto da comida caseira, ganhamos muito conhecimento com novas descobertas, pesquisas, somos constantemente assolados por notícias de famosos que comem "tal e tal"para se manterem jovens, não comem isso porque faz mal, ou comem aquilo porque faz muito bem. E além de perdidos com tanta confusão, o medo está assombrando nossas fotos mais lindas de comida.

Disfarçamos com nossas justificativas. 

E sentimos vontade, necessidade dessa comida afetiva, dessa comida que aquece a alma.

E não deveríamos ter medo dela.

Equilíbrio, moderação, temperança é o que nos faz bem.

Por outro lado, há um movimento sem medo. Um movimento com alegria de resgate dos antigos cadernos de receita de nossas avós, mães, tias, madrinhas.

Ah! Como eu me lembro de minha mãe recortando "selos" que vinham na embalagem do café Seleto; mandou-os todos pelo correio e recebeu um livro em espiral, capa verde com receitas.

Já folheei cadernos de receita amarelados, uma e outra mancha de um dedo engordurado.

E para não ter medo de comida, duas fotos que estavam no meu celular.
Foram tiradas em julho deste ano, lá na fazenda onde mora Tiana, minha sogra.
A legenda é longa:

Os dias de férias foram passados lá. Montanhas cercam a casa. O vizinho próximo, uns cinco, dez minutos de carro. Ao redor, vacas, pasto, café plantado, mudas de café, casal de gansos, galinhas soltas.

Compra do mês é literal ali. Nos outros 29 dias, corre lá na horta e apanha tomatinhos para a salada.

Eu achei na despensa uma caixinha de leite condensado, um achocolatado para vencer e não tive dúvidas: fogo, manteiga na panela e vamos de brigadeiro de colher.

Minha sogra que pouco enxerga, começou a me rodear na beira do fogão. E eu ralhando com ela para sair dali.

Não adiantou. Ficou ali em roda até eu colocar o doce no prato e como ela já estava trocada, banho tomado, falei bravo para ela sair dali que iria se sujar na pia.

Então ela me revelou o que queria:


"Me dá a panela que eu quero "rapá"
Tô aqui te rodeando que é pra você não colocar água na panela!

Saiu de perto de mim e foi raspar a panela em paz debruçada na sua janela!


domingo, 24 de setembro de 2017

Memória dos nossos dias

Foi num domingo que eu li uma crônica do Antônio Prata, chamada Recordação.
Numa conversa dentro de um táxi, o passageiro ouve o taxista relatar a perda da esposa e a tristeza por não ter uma foto dela. A indignação é instantânea, nenhuma foto?
Ao que o taxista lhe responde que ele tem sim fotos, inclusive um álbum, mas são fotos em que ela, a esposa, não é ela. Fotos produzidas, cabelo com penteado e o que ele queria mesmo era uma recordação trivial, corriqueira. Queria mesmo era uma foto dela de avental, por fim diz.

Foi uma crônica que ficou em mim. Tanto que, em uma carta que escrevi recentemente, falei sobre ela e não é que minha destinatária também conhecia a história e gostava muito dela?!

Há muito que já deixamos os filmes kodak e fuji para trás. Só por gosto e hobby que algumas pessoas os usam.
A facilidade da fotografia digital deveria mesmo nos proporcionar essa recordação: fotos do cotidiano, espontâneas, sem arranjos e produções.

E há um movimento para estimular esse tipo de foto do dia a dia.
Conheço uma joaninha que retrata a memória dos nossos dias de uma doce maneira!

Quero também deixar um link para você se inspirar entre fotografar e escrever sobre essas memórias.

Aqui: savethelove.com.br

E vou mostrar o que tenho feito por aqui, no nosso dia a dia.









Fotos do Bernardo, entre estudos e árvores.


Passeio com o cão e aqueles bons momentos no banco da praça




Júlia ao perceber que eu a fotografava: "Você não fez isso?
Sim, eu fiz.
O que as pessoas vão pensar ao me ver estudando com esse rolinho de passar nas roupas?
O mesmo que eu: Nossa que estranho, porque será que esta menina estuda com um rolinho de tirar bolinhas e fiapos das roupas?


Nesse momento ela caiu na risada e atirou para longe o tal rolinho!
















terça-feira, 12 de setembro de 2017

Adeus dona Maria

São ovos fresquinhos, selecionados, direto da granja para sua mesa.
Venha correndo aproveitar dona Maria, é o carro do ovo passando na sua porta
São trinta ovos por apenas onze reais.
Pode chegar dona Maria, pode examinar sem compromisso
Que hoje a senhora leva trinta ovos por apenas onze reais
Venha correndo aproveitar dona Maria
Ovos graúdos de qualidade
É o carro do ovo passando na sua porta dona Maria

Desci para o passeio matinal do cãozinho e quase ocasionei um acidente: seu Sidney, o porteiro vinha entrando segurando uma bandeja de papelão verde-azulado contendo 30 ovos que quase foram parar no chão, quando eu e ele nos encontramos no estreito portão.
Risos, pedidos de desculpas e a recomendação por parte dele de que os ovos eram mesmo dos bons.

Eu já tinha ouvido o tal carro do ovo, mas nunca pus reparo realmente nele. Ou melhor, no som que sai por um alto-falante.
O carro é uma belina, cor de chumbo cintilante e fica lá estacionado por um tempo chamando, lembrando a dona Maria de comprar ovos. E que venha correndo dona Maria.

Foi seu Sidney que me falou do carro que chama por dona Maria. Eu sou Donana e achei bem ultrapassado o tal carro do ovo.
Não por ser belina. Por generalizar homens e mulheres, por reduzir-nos todos a dona Maria, por faltar com gentileza à todas as Marias.

Retrato de uma época a fala gravada que sai do alto-falante.
Um passado que não foi bom e serve para nos ensinar.

Meu pai, que Deus o tenha, já baixou ligeiro a manivela do vidro de sua brasília ocre e mandou um "vá cozinhar feijão dona Maria".

Retrato de uma época que não deveria ter existido, mas já que houve, sirva para nos ensinar a não reproduzir o mesmo erro do passado.

E por falar em ovos...
Adorei a novidade que eu trouxe do supermercado: uma caixa de ovos lindamente ilustrado com patinhas ( ou seria pezinhos de galinhas ) azuis escrito em letra bonita: galinhas livres de gaiolas.

Tem também a opção "passeio livre no campo", porém esse custa mais caro.

Penso em lançar produto similar escrito em cor laranja, que é a minha predileta:

Galinhas confortavelmente acomodadas em leiteiras antigas
Assim ó




sábado, 2 de setembro de 2017

Folhas caídas


Sentei-me num banco próximo a essa jovem árvore e fui tomada por um encantamento: suas pequenas folhas avermelhadas estavam banhadas pelo sol do final da tarde. Era uma luminosidade tão apaziguadora. Eu estava sem possibilidade de fotografar, não havia levado qualquer dispositivo.
Voltei na tarde seguinte e fui surpreendida novamente.
As folhas estavam todas no chão. Sobrara apenas uma ou outra.
Uma bela lição...

Assim foi também com o blog e o mês de agosto. Queria escrever, postar; deixei para depois e quando vi já estava no chão a folha destacável do calendário. Setembro se faz presente.

O que escrever, ou algo relevante a escrever, não tenho.
Só o anseio em voltar, interagir aos poucos.


sábado, 15 de julho de 2017

A doçura dos blogs

Não estou em minha casa. Há uma semana que estamos na roça, na fazenda e hoje pela primeira vez, abri a lata de açúcar.
Deixei a água do café borbulhar um pouquinho mais que o necessário, só para demorar no reparo.
Reparei docemente no objeto que, nesta casa da fazenda, serve como pegador, medidor do açúcar.
Metade de uma pequena cabaça.


Fui preenchida pela doçura que os blogs me trazem.
Blogs? Você deve estar estranhando a conexão fazenda-blogs.
Mas é exatamente isso: nas minhas andanças pelos cantinhos virtuais dos blogs, através dessa doce partilha, conheci a moça que depois de assistir a um filme ( Ida ), fez certa manhã, uma chuvinha de açúcar sobre o pão com manteiga; de outro canto, a moça disse não ter paciência para finas chuvinhas de açúcar, afinal é uma ariana com ascendente em áries, e então faz um mergulho da sua bolacha lambuzada de manteiga direto na lata de açúcar. E ainda tem a moça que quando vai à padaria, utiliza um pacotinho e meio de açúcar e fica sem saber o que fazer com a metade do pacotinho que fica. Não quer desperdiçar, então dobra-o cuidadosamente e o recoloca na cestinha com a esperança de que um próximo cliente, vencendo indagações e medo de envenenamento, utilize de seu meio pacotinho, gentilmente deixado ali.
Voltando ao café, titubeei em despejar sobre o líquido fumegante o açúcar acomodado na cabacinha. Peguei colher, me senti segura. Ficou bom.
Beberiquei debruçada na janela da cozinha e o pensamento correndo por entre pastos, plantações, amigos cultivados nos blogs e vontade imensa de escrever.





quarta-feira, 12 de julho de 2017

Jabuticabeira

Saudades, saudades, saudades!
Vontade de interagir e vou fazê-lo, mesmo a passos de tartaruga.
E por falar em passos, estou em Passos, Minas Gerais.
Com internet por aqui!
Que vem a galope, por vezes, muitas vezes empaca, mas hoje, ventos favoráveis.
Deixo então um pouquinho da paisagem da fazenda.


Bastante jabuticabas no pé ensinando paciência.
Precisam ficar pretinhas.






Silêncio restaurador!


Um beijo e promessa minha de visitar os blogs amigos!
Até.




sexta-feira, 9 de junho de 2017

Inauguração

hoje, lua cheia de junho, houve uma grande inauguração
obra monumental
compareci
procurei palanque com primeira-dama chique
homens atrás do grande feitor-governador/prefeito/presidente
aqueles homens sorridentes e cheios de aplausos
procurei nos noticiários
jornais, revistas, tv
nota alguma
notaram coisa nenhuma
nenhuma "influencer digital"
escreveu no seu blog sobre a grande inauguração

uma ponte foi inaugurada


olhem bem, ponham bastante reparo:
afastem os fios da tv a cabo, da telefonia, da eletricidade, da inutilidade
e está lá a grande ponte!
ligação direta com o alto pinheiro

joaninhas, formigas, vespas, passarinhos compareceram 
à grande inauguração
borboleta teve um atraso por conta de um difícil néctar 
vem mais tarde

hoje, lua cheia de junho
dois caminhões de mudança chegaram aos edifícios do entorno
trazendo novos moradores
poxa! eles estão se mudando para perto da grande ponte!
será que eles sabem disso?!

os shoppings da cidade estão e ficarão ainda mais lotados
para as compras do dia dos namorados
ah! certamente eles entregarão os presentes e farão juras de amor
aqui na ponte recém-inaugurada...
aqui não se coloca cadeados de amor
porque cadeados que prendem não combinam com amor

foi obra de difícil execução
muita noite de luar
frio intenso
chuva forte com vento
dias de brisa fresca
sol quente demais 

a grande ponte foi inaugurada!




segunda-feira, 5 de junho de 2017

A oração funciona?

Há uma história, a qual eu gosto muito, que se propõem a responder essa indagação: a oração funciona?
Quero partilhar com vocês. Está no livro "A energia da oração"


Era uma vez um garoto de seis anos de idade que tinha como animal de estimação um ratinho branco. O ratinho não era bem um animal de estimação, era o melhor amigo do garoto. Um dia, o garoto e o ratinho foram brincar no jardim. O ratinho entrou num buraco do chão e não voltou mais. O garoto ficou muito triste. Achou por um instante que não valia mais a pena viver sem o ratinho. Ajoelhou-se, juntou as mãos e orou fervorosamente para que o ratinho voltasse. Rezou de todo o seu coração. Rezou da maneira como via sua mãe fazê-lo, e murmurou para Deus a seguinte oração: "Eu creio em vós, ó Deus. Sei que, se quiserdes, podereis trazer de volta o ratinho".

A criança ficou de joelhos e orou com toda sinceridade por mais de duas horas. Mas o ratinho não voltou. Finalmente muito triste, entrou em casa sem o ratinho.

Durante sua infância, rezava sempre que alguma coisa ruim acontecia. E o que pedia nunca se realizava. Nos anos da escola secundária, não acreditou mais na oração.

O garoto, agora um adolescente, matriculou-se nas aulas de música no colégio católico que frequentava. Um senhor idoso, de voz trêmula e bastante doente, dava as aulas. A primeira coisa que o professor fazia de manhã, antes de começar a aula, era uma oração. Rezava durante uns quinze minutos, o que não agradava muito a nenhum dos alunos. Sua maneira de rezar não era muito interessante nem cativante. Antes de começar, sempre perguntava: "Alguém de vocês tem alguma coisa que quer que eu peça?"Tomava nota daquilo que porventura alguém dissesse e então começava a orar na intenção de cada um.

Muitas vezes pedia coisas muito simples como: "Amanhã vamos a um piquenique, portanto dê-nos bom tempo e não chuva". Para o nosso rapaz, esses quinze minutos de oração antes da aula eram puro aborrecimento. Ele não acreditava em nada. Apesar disso, o professor continuava rezando sinceramente todo dia.

Certa vez, entrou na sala uma garota chorando inconsolavelmente. Disse que fora informada por seus pais que sua mãe estava com um tumor no cérebro. Tinha muito medo de que sua mãe morresse. O professor escutou-a com atenção, levantou-se, olhou pela classe toda e disse:

"Se houver alguém na sala que não queira rezar conosco, pode sair e ficar no corredor. Os demais, vamos rezar pela mãe desta moça. Depois de terminada a nossa oração, pedirei a alguém que vá até o corredor e avise a quem saiu para que volte".

O rapaz pensou em sair da sala, porque não acreditava na oração. Mas alguma coisa o fez ficar em sua carteira e ver o que ia acontecer. O professor pediu que todos inclinassem a cabeça, e começou a orar. Sua oração foi muito curta, mas sua voz era forte. Com a cabeça inclinada, de mãos postas e olhos fechados, disse: "Muito obrigado, Senhor, por curares a mãe desta moça". Foi só o que disse.

Duas semanas depois, a garota contou à turma que sua mãe estava recuperada. Uma tomografia do cérebro revelara que não havia mais vestígio do tumor.

Este milagre restaurou a confiança do rapaz na capacidade de cura da oração, confiança esta que havia abandonado há bastante tempo. Começou, então, a rezar por seu professor de música, que estava outra vez muito mal. Rezou com sinceridade. Rezou de todo o coração pela saúde do professor de música, mas um ano depois, o professor morreu.

Há muitas reflexões que essa historinha pode nos trazer...

A oração é uma ponte!


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Cheiro de perfume

É sabido que cheiros despertam memórias. Memórias recentes e mesmo aquelas que, de tão ocultas em gavetas esquecidas, já nem nos lembramos.
Foi assim comigo. Por esses dias, tive uma memória acordada por um cheiro.
Não um cheiro que me chegou pelas narinas. Eu não o senti, eu o li.

A leitura era de uma pequena entrevista. Uma antropóloga que fez um trabalho em uma cadeia feminina ( na verdade, numa instituição sócio-educativa ) com meninas de doze a vinte e um anos, estando a maioria com quinze anos.

O trecho:

"É assim: quando eu chegava na cadeia, tinha de ficar no pavilhão enquanto esperava as meninas serem liberadas. Então o pedido era: "Dona Débora, deixa eu cheirar a senhora?".
Dentro da estratificação social, da desigualdade de renda, nós nunca nos encontraríamos. Nenhuma daquelas meninas seria cheirada ou beijada por mim fora dali, nem elas beijariam ou cheirariam a sinhazinha aqui. Então eu dizia: "Você quer cheirar? Cheira."  *

De alguma forma fui tocada por esse cheiro que li. Há muito o que conversarmos sobre isso, mas será  adiante.

Hoje não sinto vontade de falar dessa ausência de perfume que faz surgir aquele cheiro que incomoda...
Falarei das minhas lembranças em frascos.

Eu não sou de perfume. Atualmente tenho apenas um frasco e as vezes peço umas borrifadas de uma fragrância da filha!
Sabonete, desodorante, creme do cabelo, creme do corpo, muitas vezes me bastam.

A gavetinha que se abriu no mais profundo de mim, traz o carro da Valdete, uma variant azul claro estacionando na porta de casa. Ali ela nos entregava o pedido da avon que mamãe havia feito. O pagamento seria feito alguns dias depois, na casa da própria Valdete e eu adorava ir lá!

Um pequeno frasco com a tampa em forma de maçã: é tudo o que me lembro. Do aroma, nada. Acho que esse foi um dos primeiros perfumes que usei.
Quando eu acompanhava mamãe até a casa da Valdete para o pagamento, torcia para que o convite para entrar e tomar um café fosse aceito.

Feito! Enquanto o café com conversa acontecia lá na cozinha, Valdete me permitia ficar sentada de frente à penteadeira dela. "Pode olhar, pegar, abrir e passar um perfume se quiser".

Era uma  grande  penteadeira, Três espelhos e toda tomada por perfumes do catálogo que ela vendia. Também haviam os talcos. Os simples, os em lata e aqueles com uma linda esponja redonda.

Lembro-me da primeira loja do O Boticário que entrei e saí de lá com um Acqua Fresca. Cheiro que marcou muita gente!
Conheci e ousei usar o perfume masculino Stylleto e teve também a "febre"das meninas da escola com o Giovana Baby.

Agora tão diverso é esse mundo dos perfumes. Tem até marketing olfativo ( você já deve ter percebido o cheiro característico de determinadas lojas e tem gente que trabalha com isso ).

Mas tem mesmo gente que é perfumada na alma! Deve ser de sol, de olhar a lua e as estrelas. Que aprecia a chuva e sabe atravessar noites escuras.

Deixo uma fotografia bem perfumada que fiz dias atrás!
E você, como é sua relação com o perfume?
Deixe um cheiro nos comentários!



Lavandas

* Debora Diniz para Bons Fluidos edição 219

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Jardins que falam

Há tempos que queríamos fazer esse passeio!
Conhecer o parque Amantikir que fica em Campos do Jordão.
Foi numa segunda-feira que as condições ficaram favoráveis e pudemos apreciar lindos jardins, bela natureza!
Um pouquinho em fotos para vocês!


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Inocência

A mulher estava no portão. No seu colo, uma alegre menininha.
O homem saiu lentamente, sentado na moto ainda desligada. Desceu, fez com seu polegar um pequeno sinal da cruz na testa da mulher. Beijou-a depois. Repetiu o gesto na testa da criança, o pequeno sinal, o beijo por fim.
Sentado novamente na moto, disse com voz alta e doce: "um bom dia minha sogra".
Mulher e filha acenaram e sorriram até a moto deixar de ser vista no final da rua.

Eu agradeci silenciosamente por poder apreciar este pequeno ritual imenso de amor e inocência.
Nutriu-me presenciar tudo aquilo enquanto passeava com o cachorro na fria manhã.

Inocência...
Ah! Como eu achava ruim, quando criança, ouvir dos adultos a inocência das crianças. Soava-me como um sinônimo de coisa boba.
Que boba era eu!

Falo por mim, mas sinto que é um desejo coletivo, um desejo de muitas pessoas vivermos tempos de inocência.
Quanto cansaço, quanta exaustão o tempo todo termos que olhar para algo e buscar o que está por trás daquilo. Nada mais é o que parece ser. Tudo com uma segunda intenção. Sempre esperando por algo que ainda está por vir. E claro, que este algo, é sempre pior.

A cena que apreciei, era toda inocência. Não era para ser vista. Era um ritual intimista.
O acaso me pôs ali do outro lado da rua, um pouco distante para presenciar a inocência tão escassa e que tanta falta nos faz.




terça-feira, 9 de maio de 2017

Como não dar uma notícia

Ontem, meu filho chegou bem adiantado de seu horário habitual.
Expressei meu espanto, indagando-o ainda na porta: "Nossa, o que aconteceu que você chegou tão cedo?"
"Um colega nosso convulsionou na sala de aula e aí não teve mais clima; depois que a ambulância chegou, fomos dispensados. Ele recebeu no whatsapp que o tio dele tinha morrido".

A notícia da morte do tio ter chegado via whatsapp não me surpreendeu nem um pouco. Há dois anos, enquanto meu marido me dava a notícia com a voz embargada que seu pai havia morrido, "alguém"mandava um whats para meus filhos: "Oi! Sabia que teu avô morreu?"

Conversando com meu filho a respeito desse triste ocorrido, ele me perguntou como era na época dos telegramas, questionou-me se não era a mesma coisa - uma notícia triste dada via papel.



A fotografia está bem ruim. É um telegrama datado de 1945. Fotografei-o semana passada quando fui a uma exposição num parque daqui. Exposição de correspondências antigas de moradores da cidade.
Esse telegrama, trazia uma notícia boa: CHEGOU PIANO MENINAS CONTENTES ABRAÇOS
Haviam outros expressando profunda tristeza. Aqui na cidade funcionou um sanatório para tratamento de tuberculose, e muitas vezes, acho que na maior parte das vezes, as notícias não eram nada boas.

Expliquei para meu filho a diferença entre um whatsapp e um telegrama dando a mesma notícia.
Na época dos telegramas... sabíamos que geralmente eles não traziam notícias boas. Entre o carteiro bater palmas em frente ao portão e anunciar em voz bem alta "Telegrama", o coração já mudava o compasso. 
Havia um caminho a ser percorrido entre o anúncio com palmas lá no portão e a a abertura do envelope pardo já dentro de casa.
Cumprimentava-se o carteiro, que após breve meneio de cabeça, perguntava pelo nome que estava no destinatário - podia ser a própria pessoa, o marido, o filho, a tia já velhinha.
Era preciso assinar, colocar número de documento e só então segurávamos em nossa mão o telegrama.
A boca já tinha se acostumado com o amargo que lhe tomou desde o grito do entregador.
Então quando o telegrama era aberto, de alguma forma ( pressentimento, intuição? ) esperávamos por uma notícia ruim.

Diferente de você estar no whatsapp, rindo de memes, piadas, emojis mil, besteiras ( especialmente e principalmente no caso dos jovens :) ) e se deparar com uma notícia terrível assim no meio de toda aquela algazarra virtual.

Claro que um telegrama também não era a melhor forma de dar uma notícia, especialmente as ruins, mas eram, muitas vezes, a única maneira de fazê-lo.

Acho que não podemos perder a sensibilidade para um momento difícil. Sabemos da facilidade de uma mensagem instantânea, mas muitas vezes ouvir a voz é muito mais adequado. Olhar nos olhos e depois poder abraçar, seria ainda melhor.

Estamos avançando tanto em nossos aparelhos, a cada ano, uma nova geração surge - " esse com reconhecimento de íris; o outro pela sua digital".
E o reconhecimento humano, estaríamos perdendo?

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A carta maldita

Eu era uma criança. Oito pra nove anos quando peguei e li aquela carta.
Não tínhamos caixinha de correspondências; eram deixadas no portão.
Estranhei aquela carta, eu era familiarizada com cartas, e aquela não continha selo, nem o carimbo dos correios, não havia remetente e no destinatário estava escrito: PARA VOCÊ.
Sim, era para mim.
Abri-a ali mesmo sentada nos degraus próximo ao portão.
Fiquei paralisada e os sentimentos que se sucederam, hoje já não sei descrever.
Por vários dias, convivi com aquela sensação horrorosa.
A carta era descrita como uma corrente e quem a quebrasse, ah... quem a quebrasse...
Houve sim pessoas que romperam a corrente e ali na carta estava descrito tudo o que de ruim lhes aconteceram.
Acidentes automobilísticos, casas incendiadas, perda de emprego e empobrecimento estarrecedor e o pior de todos na minha opinião de oito pra nove anos - a mãe daquele que quebrou a corrente, em menos de três meses, morreu.
Não quebrar a corrente significava escrever, ou melhor, copiar dez cartas iguais àquela e enviar para dez pessoas diferentes.

Comecei desesperadamente a fazer as cópias, angustiada com as desgraças ali descritas, angustiada com e como eu iria distribuir aqueles envelopes anônimos. E fui salva pelo flagrante de minha mãe.
Caí no choro com medo de que ela morresse em menos de três meses.
Ela entendeu o tamanho do sofrimento para tão poucos anos de vida e disse-me que aquilo era coisa de gente que não tinha o que fazer e que não deveria acreditar naquelas coisas. Ao invés de escrever cartas daquele tipo, apenas reze e tudo ficará bem, ela me disse.
Eu me acalmei, rasguei tudo e ela não morreu em três meses, nem houve incêndio, ou qualquer outra tragédia.
Encontrei outras cartas daquele mesmo tipo, apenas com desgraças diferentes descritas, na minha infância e depois nunca mais.
Achei, depois de adulta, que tínhamos evoluído o pensamento e por isso aquelas correntes desapareceram.
Que engano!
Ganharam apenas novas roupas.

Estão nas redes sociais, exigindo que você diga amém, que você compartilhe em vinte e quatro horas, que você repasse a dez amigos. Continuamos a querer obrigar o outro. Continuamos a ter medo e por isso repassamos, abaixamos a cabeça mesmo sem querer, sem acreditar que aquilo sirva para algo.

Agora, em tempos políticos somos desafiados, ameaçados - "agora é pra valer Quem não responder com um fora temer... Estará fora do meu twitter, do meu face, do meu snap, do meu instagram... prazo Até sexta feira 28/04."

Sério, acho incoerente esses tempos. Lutamos por igualdade, lutamos para acabar com o racismo, com a xenofobia, lutamos por inclusão, mas somos incapazes de aceitar quem pensa diferente da nossa ideologia? Boas amizades são desfeitas porque não se coloca um fora temer, fora dilma, fora sei lá quem?
Vamos construindo relações agradáveis pelas redes sociais e de repente, fulano já não serve porque é isso ou aquilo?

As cartas malditas estão por todos os lados... fazendo ainda enormes estragos.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Aprecie a luz

"Vá para fora e veja mais o céu. Vá para fora, olhe para o céu e veja mais a luz. Eu recomendo que você vá lá fora, olhe o céu, se conecte com o céu. Este é o espaço sagrado externo.
Olhe a luz no céu no por do sol, no sol nascendo, no sol nas montanhas, no lago, nas construções, nas flores... Essas luzes são a manifestação externa, a luz externa.
Quando você se conecta com o céu externo, isto ajuda você a se conectar com o céu interno."

Tenzin Wangyal Rinpoche

Há maneiras agradáveis de começar bem o dia.
Vá para fora e olhe o céu.
Há muitas maneiras de se conectar com essa fabulosa paleta de cores e o blog da Chica, Céu e Palavras, há muitos anos nos presenteia a cada manhã com um lindo céu, nos ensina a olhar para o Alto e ver a Luz.
Por vezes a Luz pode até estar obscurecida por uma nuvem, por um dia chuvoso, mas está lá!

Minha gratidão a esse lindo trabalho que Chica realiza fotografando, garimpando céus e nos trazendo boas palavras para um bom dia, ou para uma ótima noite.

Aprecie a luz!




sábado, 22 de abril de 2017

Diário

Ontem li num blog sobre escrever diários. O quanto a garota se tornou melhor e mais feliz escrevendo e relendo seus diários.
Tomo a decisão. Vou escrever também. Ainda que virtualmente. Isso aqui é um diário também.

Sábado, 22 de abril de 2017.

Acordo às 05h46min.
Filho tem aula.
É emenda de feriado, é feriado prolongado de Tiradentes que a gente lembra, mas eu tinha me esquecido que hoje é "descobrimento do Brasil".
18˚ é a temperatura lá fora. O céu está muito limpo e bonito. Promete ser dia de sol ( previsão minha mesmo).
Tenho que ser ágil. Café preto, duas castanhas do Pará e metade de uma maçã. Perguntei ao filho ontem antes de ir dormir.
Mando-o colocar blusa. Ele resmunga mas obedece.
Descemos: eu, o cachorro e o filho.
Seu amigo José já o espera; vão pegar um Uber. José veio só para esta cidade. Seus pais ficaram. José está sem blusa nesses 18˚. Um dia ainda arrumo um jeito de falar isso pra mãe dele.

Na minha volta, tomo o meu café, que na verdade é chá. GUEM MAI CHA. Assim que está escrito no pacote. É chá verde com arroz integral tostado. Aprecio demasiado.

No apartamento agora, só eu e o cão. Filha e marido têm casamento para ir à noite em outra cidade.
Achei cruel deixar o menino aos cuidados dele mesmo e ir também ao casamento. Fico. Ele tem aulas durante todo o feriado ( e agora tenho certeza Chica, que a melhor idade é a da Marina ).

Vou comprar jornal. São 9h da manhã e sol já aquece o ar frio. 15 min de caminhada até a banca.
Levo o cão. Compro o jornal e uma bala de hortelã.
Acho que a bala é saudade da filha.O jornal não é para ler; é para forrar o cestinho dos banheiros. Toda vez que ela vai comigo comprar o jornal aos sábados, pede bala de hortelã.
Volto chupando a bala e pensando nela e no casamento.

Ela me perguntou todo o protocolo da cerimônia. A gente fica sentado? Que horas levanta? Vai tocar música?

A menina tem doze anos e nunca foi a um casamento. No meu tempo acho que casavam mais porque nessa idade eu já sabia até as falas do padre.

Explico tudo com delicadeza e ela me devolve: "Obrigada, novelas, vocês me ensinaram tudo sobre casamento". "Ah mãe, sempre tem casamento no último capítulo".

Houve uma evolução muito grande nos casamentos.
Vou contar.
No convite que recebemos constava um site. Tudo deveria ser visto e resolvido por lá. Horários, trajes, endereços, lista de casamento virtual, fotos dos noivos e padrinhos.

Adorei a lista de presentes virtual. Fiquei um bom tempo olhando cada item e quando me decidi, ocorreu-me uma dúvida em relação a cor. Chamei marido, mostrei-lhe os outros itens, disse estar apreensiva em relação a cor porque de repente, nada naquela lista, nada parecia combinar e assim ele ligou para a mãe da noiva, que no caso, é sua própria irmã.

Expos com delicadeza minha dúvida sobre o ornamento das cores, que foi imediatamente sanada. "Mano, preocupa não com a lista,  qualquer coisa, porque aquilo é só pra dizer. Num vai os presentes para ela, só o dinheiro".

Odiei a lista de presentes virtual.

Não tive como conter as lembranças dos casamentos da minha infância. A mãe da noiva era a que mais sofria. A cada visita que ia à sua casa, ela os conduzia até a casa da noiva e lá acomodava os presentes em cima da cama.
Nos dias que antecediam o casório, já tinha presente no chão.
Como era gostoso olhar aquilo. Cinco panelas de pressão, quatro ferros de não vapor, jogos de prato duralex.

Decido que não gosto das listas de casamento virtuais e também que não vou mais escrever diários.
Tenho muito passado agora e esse passado se mistura com a bala de hortelã que eu volto chupando e assim o diário perde a característica de diário, enfim. 

Mas, antes de encerrar, só mais uma coisinha.
Ontem ( tá desculpa, o diário era pra ser sobre hoje ) eu peguei elevador com um pai e um garotinho.
O pai falou para o menininho me oferecer a bolacha. Ele virou o pacote em minha direção e eu agradeci recusando.
Fiz errado, devia ter pego, pois assim o garotinho já aprende que tem mesmo uma finalidade oferecer.
O pai se desculpou por ser bolacha de maisena. Eu disse que gosto de maisena e água e sal também.
Ele lembrou de "umas redondinhas que tinham pedrinhas de sal".

Claro que eu lembro, exclamei. Levei muito de lanche!
Eu ficava lambendo o sal, el econfessou. Acho que nem existem mais, pois agora fazem mal, concluiu.

Concluo assim que escrever diários é para os bons. Eu tô mais é para cadernos de memórias!

Feliz Dia do Descobrimento ( via Odebrecht ) do Brasil.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Mistérios

Cecília, a responsável pela faxina no prédio onde moramos, dirigiu-se a mim na entrada do elevador:
"Você se incomoda se eu subir com você?"
"Larga de frescura Cecília"
Subimos sorrindo.
Enquanto deslizava o pano na parede de aço inoxidável, relatou:
"Ana Paula, você se lembra daquele cheiro horrível que estava aqui no elevador? Eu limpava, limpava, morador reclamando e o cheiro não passava? Então, tiveram que chamar os técnicos e eles descobriram que o cheiro vinha do fosso do elevador. Fizeram uma limpeza e tanto lá. E você nem vai acreditar o que eles encontraram por lá..."

Comecei a passar mal. Visivelmente.
Cecília, percebeu.
"Nossa, você está pálida, suando. Será que é o cheiro do produto? Calor?"

Cecília tem aquela prosa agradável; um bom dia que faz melhor mesmo o nosso dia.
Mas naquele momento, tudo o que eu queria era ser rapidamente içada para o meu andar o mais rápido possível. Ainda bem que não houve tempo para ela concluir o relato do que foi encontrado lá no fosso do elevador que exalava horrendo aroma.

Já em casa, tomei um gole de água e joguei-me no sofá para me recuperar.

Não tive coragem de falar para Cecília.
Farei a confissão aqui no blog:

Eu perdi meu espremedor de alho no dia internacional da mulher.

Porque só agora estou escrevendo?
Bem, minha filha alertou que não seria nada bom falar de espremedor de alhos no dia da mulher.
Eu, apesar de discordar, afinal, feminismo a parte, mas comida bem temperada todo o mundo gosta, acabei acatando a recomendação da menina.

Ia escrever na Páscoa, mas fui novamente alertada por ela, que chocolate não cai bem com alho. Insisti no bacalhau, mas acabei cedendo e me calando.

Se eu demorar mais, será dia das mães e aí não pega bem, mesmo que as mães utilizem alho o ano inteiro. Dia dos namorados então... falar em alho deve dar separação.

Então agora é a hora. Repito, perdi meu espremedor de alho.
Vou descrever o modelo: ele é do tipo andarilho. Após exercer sua função, é devidamente higienizado, precisando algumas vezes ser utilizado um palito de dentes Gina e após isso ele vai para o sol antes de repousar na gaveta dos talheres e utensílios grandes ( a segunda gaveta ).

Não, não adianta que já tentei usar aqueles potes com uma massa de alho mas eu não gostei nem do gosto nem do cheiro que ficou na geladeira, no armário, enfim, gosto mesmo é da cabeça do alho, de descascar, e amassar no sumido espremedor. Acho que esse gosto herdei de papai, que era obrigado a andar com um colarzinho com alho no pescoço por causa do saci-pererê. E eu não estou brincando.

Mas, voltemos ao sumiço.
Desapareceu mesmo e isso me desesperou. Já imaginou se ele foi parar lá no fosso do elevador?
Porque já revirei gavetas, armários, debaixos, cantos e nada.

Até hoje não consegui comprar outro. Sei lá, talvez seja a esperança dele aparecer repentinamente, um certo apego talvez.

Um pouquinho mais da descrição dele: era daqueles completos, que só depois da internet eu aprendi que ele tinha muitas utilidades como por exemplo, tirar caroço de azeitona. Quando descobri isso, corri comprar um vidro, só para testar a novidade recém descorberta. Depois de umas dez azeitonas, aquela "perninha" quebrou, mas tudo bem, ele continuava a exercer a função de espremer perfeitamente.

Durante todo esse tempo, tenho feito o trabalho de picar o alho manualmente. Descasco, corto ao meio, depois em tiras no sentido do cumprimento bem finas. Venho então com a faca no outro sentido cortando cubinhos ínfimos e depois faço uma espécie de passeio com faca em todas as direções para torná-lo ainda menor. Declaro que esse é o motivo de eu estar tão ausente dos blogs...
É bastante demorado esse processo.

O dedo indicador e o polegar, depois de uns dois minutos nesse procedimento começam a arder e latejar. Mas, até a próxima refeição, passa.

Ah! Você quer saber se minhas mãos ficam cheirando a alho?
Claro que não.
Eu assisti ao episódio que a Rita Lobo ensinou um truque: nada de leite ou limão. Basta esfregar as mãos na pia de inox que o cheiro sai feito mágica.

Sigo assim meus dias. Evitando falar com a Cecília sobre o que foi que encontraram nas profundezas do elevador, esfregando as mãos na pia e lembrando de papai sendo salvo daquele encontro com o saci por causa do colarzinho de alho.

Inté.

domingo, 9 de abril de 2017

Composição, produção de texto, redação

Ou,
Estão destruindo a criatividade de nossas crianças

Faz tempo que quero abordar esse assunto. Precisamente, dois anos.
Mas eu não encontrava um fio condutor, parecia-me inconsistente escrever sobre redações escolares, podia mesmo ser coisa da minha cabeça apenas...
Porém, semana passada, chegou-me a linha que faltava para eu costurar todas as ideias que foram ficando aos pedaços por aí.


Foto da folha de uma das redações que meu filho fez no último mês.
Transcreverei mais abaixo o comentário do corretor.
Antes disso, quero convidá-los a voltar aos bancos de escola. Muitos ( os como eu, mais antiguinhos! ) se lembrarão!

Composição foi o primeiro nome que eu tive contato para indicar a escrita de um texto.
E já no segundo ano primário, tínhamos vocabulário suficiente para produzir um texto curto e bom.
A lembrança que tenho dessa época foi uma composição nota cem que eu fiz já no final desse segundo ano escolar e foi escolhida para ser lida em voz alta para toda a sala.
Minha nota cem provocou risos e ao final da leitura, aplausos entusiasmados.
Acho que percebi a professora, tia Eliana ( sim, podíamos chamá-la assim ) orgulhosa.
Escrevi sobre circo. Das vagas lembranças do texto propriamente dito, a definição de um dos palhaços, magro feito uma lâmina de gillete ( meu pai era barbeiro e eu conhecia bem o fio da navalha! ) que parecia uma folha de papel quando estava de lado e o outro para contrastar, era gordo ( adorava assistir em preto e branco com papai O Gordo e o Magro ).

Nos bancos escolares daquela época, a coisa era relativamente simples no que se referia à composição, que depois teve por sinômino, produção de texto, mais para frente, redação.
Começo, meio e fim; a questão de parágrafos bem distribuídos, ideias coerentes, ortografia, pontuação. Tudo isso embasado em muita criatividade e para isso, no decorrer dos anos, várias técnicas foram-nos ensinadas. Recordo-me da chuva de ideias: anotar num rascunho todas as palavras que nos vinham ao pensar no título do texto. 

Aprendi a gostar de produzir textos na escola; era um desafio agradável.

Voltemos agora para a folha de redação de meu filho.
O que o corretor comentou, transcrevo a seguir:

Bernardo,

O uso impreciso de vocábulos e a incoerência de ideias no interior de alguns parágrafos comprometeram a fluidez do texto e a exposição das ideias.
Aplicar, sugerir uma intervenção para a resolução da problemática ( final do último parágrafo ) não é necessário para as redações dessa prova de vestibular.

Por gostar das redações, sempre que possível dou uma espiada nos textos dos meus filhos e claro, adoro palpitar!
Mas comecei a ser repreendida em meus palpites, principalmente pelo mais velho - "mãe, esse tipo de colocação não cabe para este texto; mãe, você não pode escrever isso nessa redação aqui."

Fui percebendo, entre repreensões, sugestões e explicações, que agora, especificamente no ensino médio, há um padrão politicamente correto que deve ser cumprido.

Para este tipo de vestibular, cite a revista Carta Capital; neste, Veja. Aqui seja neutro. Acolá proponha uma intervenção. Jamais vá contra o Governo naquela ali.

E dessa forma, assim que recebem um tema, precisam pensar primeiramente a que instituição se destina e moldar todas as ideias para que sejam encaixotadas ali.
Até o ano passado meu filho era bom nisso. Nesse ano ele e "caixa" não estão se encaixando.

Penso em todos os livros que lemos juntos, que leu sozinho. Todas as contações de histórias em parques, livrarias. Todas as peças de teatro infantil que os levei, as bibliotecas que frequentamos e sabe com que sensação fico? De que foi tudo em vão. Toda aquela criatividade, imaginação despertada pela leitura, pela cultura agora não serve de nada. É preciso acertar, devolver exatamente o que já é esperado.

Só eu que tenho essa sensação?
Quem mais já passou pelas redações atuais e sentiu isso?
Quem, com um adolescente em casa teve essa percepção?

Eu gostaria de estar vendo chifre em cabeça de cavalo...

Agora meu pedido de desculpas: nada foi em vão. Nenhuma leitura infantil, teatro, biblioteca.
Parabéns aos educadores, aos blogs de literatura infantil nos quais eu tanto me inspirei e me inspiro.
Paula Belmino, Jaci Pandora, Gato de Sofá, só para citar alguns.

Querem nos encaixotar, mas é a literatura, a imaginação solta, que nos faz voar.

Deixo uma animação, um vídeo de 8 minutos que bem exemplifica e também nos traz um sopro de ânimo.



terça-feira, 28 de março de 2017

Espanto

A todo o momento temos que aprender palavras novas. Não palavras que já existiam nos dicionários, são palavras novas realmente, que antes não existiam e passaram a existir por conta dos novos tempos, novas tecnologias, maneiras de pensar e se expressar.
Pós-verdade é uma dessas novas palavras. Já absorvemos blogs, face, insta, selfie.
Muitas vezes porém, vamos nos esquecendo de algumas palavras ou lembrando só parte do seu significado.
E é aí que entra a palavra que dá o título a esse texto.
Espanto.
Medo, sobressalto, terror, susto.
Indignação ( inclinada para um certo negativismo ).
A parte esquecida, talvez, seja o maravilhar-se.
Espanto é sinônimo também de maravilhar-se.

Então quero lhes contar uma história de espanto.
Começo a história pelo seu final, pela cena final.

Na rua, na calçada, no passeio público, duas malas escolares esquecidas ( possuem alça e rodinhas ).
Vários metros à frente, um carro freia bruscamente. É uma via de mão única, e no horário escolar, muito movimentada o que impediu uma marcha a ré. Pisca-alerta acionado, a motorista sai em disparada. Posiciona as malas, faz um giro com seu corpo, puxa as alças suspendendo-as e volta em direção ao carro. Corre um tanto descompassada pelo incômodo de puxar ambas malas ao mesmo tempo. Abre o porta-malas e logo sai apressada. É preciso compensar os minutos deixados ali em toda essa manobra.

Começo da história:

No ano passado, durante as saídas matinais com meu cachorro, uma alegre mãe com seu filho, interrompiam por alguns segundos os passos ligeiros para um aceno, uma palavra de carinho dirigida ao peludo.
Não demorou muito para eu saber que ela vinha a pé de outro bairro para levar o filho à escola.
Fiquei indignada com a distância e ela, bem humorada me disse fazer bem caminhar e que gostava.
Tempos depois anunciou-me que se mudaria ali, para bem perto.
Mostrei-lhe o prédio no qual moramos.
Seremos vizinhas de prédio então - ela disse sorridente - e você vai conhecer meu coelho!

Nesses rápidos encontros não era possível se estender. Muitas frases eram ditas já com as pernas em caminhada.
Vieram as férias escolares e nunca mais encontramos a simpática mulher que nem o nome eu sabia.

Certa manhã, eu saí do prédio com o cachorro e dei de cara com ela parada ali rodeada de crianças. Segurava um coelho no colo.
Apenas acenei, pois meu cão começou a latir, sinalizando não ter muita afinidade com coelhos.

Bem, não era um coelho comum, pelo menos dos que eu conheço, de pelo curtinho. Era um coelho parecido com um gato angorá, muito, muito peludo. Uma mescla de cinza e branco que se destacava ainda mais perante o vermelho da coleira. Sim, é um coelho que anda de coleira!

Fiz a volta habitual com meu cachorro e já retornando, mas ainda distante pude vê-la no mesmo lugar, agora com apenas duas crianças a rodear-lhe.

Demorei-me pois o cão vai e volta se enfronhando, parando a cada passo para cheirar.
Nessa demora, vi a cena final acontecendo: as crianças aguardavam a carona ali na calçada.
A mulher com o coelho parecido com uma nuvem fofinha a sestear, causou espanto nas crianças. Ficaram ali a perguntar, a acariciar o animalzinho.
Espanto faz isso mesmo, um encantamento tão arrebatador que malas, mochilas são facilmente esquecidos.

Vi as crianças entrando no carro, o coelho a saltitar de volta para a casa, as malas ficando ali esquecidas.

Sorri. Pensei em recolher as malas e pedir ao porteiro que as guardasse.
Nem foi preciso. Vi o carro parando bruscamente, o pisca-alerta acionado...

Voltei daquela manhã lembrando-me da bela fala, do ensinamento, do sonho de Rubem Alves de que precisamos, sempre vamos precisar, de professores de espanto.

E então, vamos nos espantar mais?!